09/09/2008

Sem inpiração

Dois passos em falso
cobrem a fina areia
deste longo litoral.
Perdem seu calso
no chão que derreia
este nascer aboreal.

03/09/2008

leia em ordem cronológica.

“Duas horas serão o suficiente...”

“Não precisaria de tanto para entender algo que tanto me interessa...” Tanto fez, porque, sob a graça de seu sussurro, eu me entreguei como criança á mãe que amamenta. E seguimos ambos pela rua, descendo até a praça mais próxima, mais solitária, onde teríamos privacidade para conversar. A cada passo eu via suas madeixas ondularem á favor da brisa, como se ela fosse ser carregada por aquelas asas de aveludadas mexas ruivas.

Senti-me seguindo a lua, como uma loba, matriarca de sua matilha, senhora de seu focinho, hipnotizada pelo tremular da lua no céu escuro. Mas era dia, e quando me dei por mim, estávamos perto de um pequeno bosque, e ali ela fez sinal para nos assentar.

Seus olhos me cativavam como o colono ara o solo vermelho, e eu era vermelha...

Cada palavra soava como se fosse ouvida pela primeira vez, com um novo sentido. “Não deve estar falando sério, garota! Ela tem mais que o dobro da sua idade...” E, por mais robusto fosse seu falar, sua voz soava para mim como um pequeno cantar, uma flor em um país distante...

Aos poucos eu era deliberadamente engalfinhada no seu cuidadoso porem relutante abraço. E em vis contratempos, minha atenção era desviada para ocasionais transeuntes que nos fitavam com olhares de desaprovo, o desdém daqueles que nada entendem daquilo que vêm. E eu demi-incorporava as suas atitudes em detrimento das minhas, como se, ao ser como ela, eu fosse acender para um mais sublime nivel de repouso. Como em uma pequena caixa frágil, eu me enclausurei delicadamente em seu colo enquanto discutíamos política, como se meninas fizessem tanta política quanto gostariam.

Já era tarde e eu tinha de me despedir, tinha de pegar a condução. E tentei dizer tchau como quem dá boas vindas, e tentei partir ao me aproximar. Meus leves braços oscilavam no ar, tentando se agarrar a algo que parecia intangível, mas era bem palpável, porém esguio.

Seu corpo era um templo pra mim, mas meu toque de adeus foi recusado, talvez pelo medo de haver um nunca-mais. E esse “nunca mais” seria verdadeiro num futuro não tão distante, sobre um chão não tão distinto, por pretextos muito mais complicados do que pequenos anseios de duas garotas adolescentes. Anseios esses que poderiam preencher a vida de mil crianças com ambições, anseios que seriam desprezados, um a um, durante nossas vidas, tornaram nosso conviver muito mais agradável que poderia ser sob o pretexto de simplesmente nos amarmos.

E sob esse pretexto eu parti. Parti para meu repouso na esperança de poder decidir meu futuro amanhã, como que decide seu presente agora. Hoje eu sou a ave que sobrevoa os confins da pretensão, predando pacientemente a glória dos que buscam pelo sucesso absoluto contra as forças do desconhecido caos. O caos da qual toda ordem é formada, do qual o indistinguível se distingue e forma todo o tipo de silhuetas que podem ser imaginadas. Sob o pressuposto caos vem toda a venerável ciência da qual todo ser levemente racional depende profundamente para a sua existência.

“somos caos e do caos viemos, somos caos e caos formamos,

e ao darmos ordem ao caos, criamos tudo aquilo que sabemos.”

Eu chegava em casa, cheio de opiniões sobre a estruturação da ordem cósmica quando minha doce mãe fazia biscoitos para o jantar. Sim, jantávamos cosias que não pareciam normais em uma casa cheia de gente normal, mas eu havia tirado a normalidade daquela casa como um beija flor suga o néctar de uma flor. Eu achava normal jantar essas coisas quando a mãe tentava suas receitas. E conseguia fazer algo nutritivo, como pequenas porções para soltados em tempos de paz. E eu era a paz, porque somos toda paz nesses tempos de luta. Somos todos paz ao tentarmos impor nossa vontade, quando a minha vontade era apenas descansar, esperar por um novo dia.

Chegava o novo dia e nada de novo cobria meus lençóis, só a brisa matutina e o ego de uma jornalista em formação. Ego meu que podia encher minha manhã com energia para todo dia.

Lanchei os restos da janta, sendo esses duas bolachas de gengibre e um punhado de biscoitos de amendoim. Desci, subi, andei e desandei no caminho para o colégio, como se nunca o tivesse feito em minha vida, pois sabia que o ginásio nunca mais seria o mesmo ao saber da existência da moçoila da leves madeixas e lábios tentadores. Mas tudo seria diferente mesmo era por causa dos olhares e mexericos que surgiriam com a desenvoltura dessa santíssima relação. Eu seria tachada de sapata tão logo alguém notasse meus olhinhos brilhantes de amor, tão logo alguém notasse o suor em minha testa. Eu estava longe de estar preocupada com o papagaiar dos meros mortais, mas sabia que haveria diferenças e desentendimentos por vir. Mas logo viria minha sonhada faculdade de jornalismo, e meus pais que já tinham se acostumado com minha tia logo se acostumariam comigo, pensando consigo que tudo não passa de uma faze...

“Eu era uma faze que nunca terminaria, uma ferida eterna na trama de nossas vidas...”