Foi com um selo na tez da minha face que ela se despediu e foi-se encontrar sua antes-conhecida amiga. Outra altona, jogadora de basquete, conhecida como rubric, pela sua mania do cubo-mágico. Ambas com mais pinta de bofa do que patéticos mortais podem suportar. Ambas boas amigas no futuro...
E foi com minhas mãos frias que me despedi, com um toque leve na pele e uma mão a abanar. Sinais que posteriormente seriam interpretados como um “por que não?” E sob essa memória eu me preparei para o dia seguinte. Fui pra casa, toquei piano, troquei de roupa e passei o banho a me deslumbrar com essa memória. Seca e limpa jantei torradas com feijão e salada, minha casa nunca foi tradicional na hora da janta, então comíamos o que nos parecia mais pratico. A casa era velha, apartamento, pra ser honesta. Paredes grossas, área estreita, quartos todos separados por um corredor que varava a casa como átrios de nosso corpo. Quadros pendurados em todos os lados e um minibar na sala de estar. Vista pra praia da costa, e a constante sensação de que algo estava errado. Não sabia se era a iluminação, a falta de sincronia ou as bíblias por todos os cantos, mas havia algo de errado. Dizem meus pais que, quando eu nasci, o apartamento pareceu criar uma vida irriquietante que esquenta o sangue de seus hospedes. E eu cresci naquele ambiente, furiosa, fogosa e coisas á mais.
Todo meu desafeto fora desconstruído naquela noite, e passei a me tornar macia como um cordeiro recém nascido. Mentalizei cada curva, cada ruga daquela silhueta e dormi como um bebê sedado. Acordei cedo, tomei meu banho, meu café, minha medicina e fui para a aula. Aula que mais parecia uma contagem progressiva para um encontro inevitável, imprevisível e ao mesmo tempo idealizado. Á vi durante o intervalo e tiramos a poeira das nossas lentes de entender gente. Falamos sobre o que éramos, como éramos, quando éramos, e mentimos tudo sobre um pouco, um pouco sobre tudo. Seus olhos miravam as partes mais desinteressantes do meu corpo, enquanto eu cobiçava tudo que ela tinha de melhor. Toda silhueta da cintura, quadris, púbis, seios, mãos, pescoço, pés, face. Ela só me olhava nos olhos, como se eu fosse feita de mágica, como se ela fosse feita de mágica. Então eu me perdi! Perdi-me nos vastos corredores da minha primeira paixão, apaixonada por uma fada traiçoeira que agora tirava de mim o chão. Eu era o dragão a ser domesticado, com meu falar pomposo e minha língua indecisa, minhas asas de criatividade e minhas garras de persistência. No fim, eu á domei. Reclamei para mim cada gota de sua atenção e fiz disso minha morada até nos aproximarmos para selar nosso destino, hipnotizadas, com um beijo...
O sinal tocou...
Despedimos-nos silenciosamente, surpresas com nossa coragem, surpresas... E nossos olhos foram se despedir muito depois dela partir. Mas eu, incansável, fui procurá-la logo depois da aula. Fui atrás de quem conseguiu cativar muito mais do que é capaz de cultivar, ainda assim, um solo disposto a ser arado.
Seus olhos não demoraram muito para me identificar na multidão, pálida, tremule, do fôlego perdido em nossa conversa. Eu logo notei sua aproximação sutil, como quem tenta entrar pelos flancos para confundir o adversário e tomar-lhe seu premio. Meus lábios logo seriam o tão cobiçado premio, mas o medo logo seria seu adversário...
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