Divagar sobre o começo é algo que persiste em minha mente nesses dias levemente fúnebres dos meus tenros dezoito anos. Não, não são fúnebres devido a alguma catástrofe ou desenhos deprimentes, e sim pelo tédio. Ah, o tédio. Eu sonhava que poderia me aventurar nos lugares mais diversos e interessantes desse complexo ao fazer dezoito anos, mas parece que a idade é inversamente desproporcional ao interesse que as pessoas têm por se divertir. Três anos de faculdade não foram o suficiente para me estriparem do meu bom humor, do meu sarcasmo e individualidade, Mas o pessoal que faz cursinho pena como se já estivessem na crise dos trinta anos.
Deus me salve de fazer 20!
Faço dezenove e doze meses, mas nunca Ei de fazer vinte, nunca Ei de largar minha juventude pelos ilusórios prazeres de uma vida adulta. Ter dinheiro é para quem não tem um belo corpo, um bom sorriso e lábia na boca. Para ser honesta, um bom sorriso e lábia na boca faz de tola muitas mulheres, um belo corpo já satisfaz os babacas, então eu estou bem munida durante minha juventude. Bem... Talvez seja por isso que tema tanto em perde-la, perder todo esse poder que a mocidade me trouxe. Mas a lábia e o sorriso não somem com a idade, e ainda Ei de dizer que muitas mulheres me ensinaram essas e outras coisas desde meus ternos 14 anos pra cá. Não seria esperta ao conclamar que não ha homem sábio nesse mundo, mas seria honesta ao dizer que nunca conheci um desses que fosse velho e “hetero”, ou que, sob quaisquer circunstâncias fosse mais sábio que essas mulheres. Mesmo perdendo toda sua munição na batalha da vida elas se superam e conseguem restabelecer novos amores, novos serviços e calores de verão.
E foi num verão que conheci essa mulher que me ensinou a liberdade de uma forma nunca antes compreendida por mim, por meus pais, ou pelo ator bonitinho da telenovela. A liberdade das alcunhas, das modas, regras, moralismos, éticas, afazeres e identidades. Ser o não-ser acima de tudo, porque tudo perde se há alguma limitação a mais do que precisamos.
E eu parei de precisar das alcunhas, e, simploriamente passei a ignorar quando era chamada pelo nome e respondia apenas á pronomes. Foi engraçado no começo, eu ainda era apegada á vícios da normalidade, mas logo fui apelidada de Vossa Mercê. Tentaram me chamar de Mercê, mas eu não respondia. Então passei a ser conhecida por Mercê, mas era chamada de Vossa Mercê, ou de Vosmicê pelos amigos e conhecidos. Por mais lunático que pareça, tudo isso foi intencionalmente arquitetado para seguir as palavras de uma senhora de 50 anos.
"Nunca se prenda á alcunhas, garota. Porque chega o tempo em que todos te chamam de velha."
A senhora dizia que logo haveria um dia em que uma jovem não seria mais vista com olhos distintos dos que olham para uma idosa. E eu seria visionária, se sendo alguém tão bem afeiçoada, não soubesse me distinguir dos outros. Palavra de ordem, globalização.
Tudo funcionou como o planejado e eu havia deixado de ser o “rosto jovem bonito e imaturo do ensino médio” e passei a ser a “rebelde jovem que foi fazer jornalismo quando poderia ter escolhido carreiras mais palpáveis”. Quanto maior seu titulo mais você se aproxima do titulo algum. E isso era um bom sinal pra mim.
Foi-se o meu aniversário de “já”neiro e. 14 anos feitos, fui pra casa arrumar meu terceiro ano com as lembranças da senhora de cinqüenta-e-poucos de Guarapari e todos os garotos e garotas que fiquei naquela estação. E vinha com o propósito de ir alem disso, para voltar com novidades mais quentes de quem havia crescido no inverno. Tratei de cuidar da minha marca, meu nome, e de comer alguém. Sério, eu realmente pensei nisso, porque nada me parecia mais maduro naquela época do que suprimir o medo que afugentava garotos e garotas (por mais que os garotos façam a “cena” eu sabia que eles temiam tanto quanto a mim). Podia parecer errado a todos, mas nada que não é crime é errado, ao menos funcionava assim pra mim. Mas o obvio parecia mais difícil do que a ementa dizia. Não havia o ideal, o necessário para correr tanto risco na mão de alguém. Não havia como me aproximar de ninguém, então me aventurei mais no solo.
Não seria a primeira vez que faria isso, mas uma das primeiras se forem adicionar a fria intenção de trazer o costume e afastar o medo. Mais tarde descobriria que isso era mais normal para os já “feitos” do que uma criança como eu poderia conceber. O prazer para afastar o medo é algo mais instintivo do que meus professores gostariam de me falar, e mais sombrio do que gostaria que fosse. Porém, tudo era digno e bom, e tudo me fazia bem se não consumisse meu tempo de mais.
Passei meu terceiro ano a devaneios da juventude. Festas, noites fora, musica, arte e alguma poesia da vida. Tive dois namorados, duas namoradas, um ficante e minha primeira vez. Tudo num ano de arregalar o olho dos que gostam de ser puritanos. Mas os puritanos são os mais masoquistas, portanto puritanismo não passa de masoquismo.
Namorei primeiro uma menina chamada Alice. Dois anos mais velha, dois anos mais imatura e previsível. Linda como só as deusas mais sublimes poderiam ser. Essa mulher fez-me afeiçoar pela idade dos 16. Tinha olhos puxados, mas nenhuma ascendência oriental ou indígena que pudesse ser rastreada. Tinha lábios suaves apesar de nunca usar batom. Seu rosto era rosado, suave e branco, mesmo indo á praia todo final de semana. Seios firmes, mesmo nunca tendo usado sutiã (eu usava os meus, morrendo de medo que minhas pequenas maças se tornassem peras). Olhos negros como o ébano, cabelos ruivos como o sol da manhã. Maçãs do rosto pouco proeminentes, rosto fino, nariz sisudo e imponente como um soldado. Seu queixo era bem feminino, orelhas pouco grandes e sobrancelhas bem feitas. E toda essa feição parecia louca para desbravar em mim o que não podia. Se eu fosse casar com alguém casava com aquela menina. Ela me provocada por todos os cantos desde que nos conhecemos, seja pro bem ou para o mal.
Ela era do segundo ano, o que me colocava na posição de professora, mas ainda assim, submissa. Ela era um bocado mais alta, 15cm, quase uma modelo, não fosse as imperfeições perfeitas de seu corpo. Me abordou um dia na sala para perguntar sobre uma amiga. Chamou me de senhora (risos) e piscou pra mim, como quem cortejava alguém mais crescido. Dei-me á gargalhar pelo tablado da sala e apresentei-me com meu novo nome.
“Je suis moi.”
Com um francês mais que arranhado eu começava uma relação que duraria três longos meses, sem contar interpostos. “Eu sou minha!”, bradei, “Eu sou o Eu de quem Deus toma toda glória.” Ela riu da minha insensatez, mas concordou com a cabeça e me perguntou o meu “verdadeiro nome”. “Eu sou eu.” Repeti, pois ela parecia não ter entendido o recado. “Eu sou a Vossa Mercê de quem tantos falam.” Nova e desconhecida, ela não sabia de quem se tratava, mas passaria á saber...
Um comentário:
Gostei :]
me avisa quando continuar ;]
=***
Postar um comentário